COMISSÃO NACIONAL

COMUNICAÇÃO PELA VERDADE E PAZ

Ricardo Alvarenga*

Criado com o objetivo de incentivar e valorizar as práticas comunicativas da Igreja Católica por todo o mundo, o Dia Mundial das Comunicações Sociais (DMC), chega a sua quinquagésima segunda edição em 2018. A certidão de nascimento dessa comemoração está no Decreto Conciliar Inter Mirifica, de 1963. O decreto é um dos documentos que foram lançados como fruto das reflexões do Concílio Ecumênico Vaticano II, iniciado pelo papa, hoje santo, João XXIII e finalizado por Paulo VI, recentemente declarado pelo Papa Francisco como santo.

No artigo n° 18, do Inter Mirifica fica claro que a comemoração foi criada com o intuito de “reforçar o variado apostolado da Igreja por intermédio dos meios de comunicação social celebra-se anualmente, nas dioceses do mundo inteiro, um dia dedicado a ensinar aos fiéis seus deveres no que diz respeito aos meios de comunicação, a se orar pela causa e a recolher fundos para as iniciativas da Igreja nesse setor, segundo as necessidades do mundo católico”.

O primeiro Dia Mundial das Comunicações Sociais foi celebrado em 12 de maio de 1967, com a temática: Os meios de comunicação social, a mensagem daquele ano foi escrita pelo Papa Paulo VI. Desde a primeira celebração do DMC, os papas escrevem anualmente uma mensagem, sobre uma temática especifica. Essas mensagens se tornaram referências para estudiosos e comunicadores de todo o mundo na compreensão da relação da Igreja Católica com os meios de comunicação ao longo de mais de 50 anos.

Um panorama das mensagens escritas até hoje leva-nos a números bastante significativos que demostram a fidelidade da Igreja no que diz respeito a reflexão sobre os meios de comunicação. O Papa PauloVI escreveu 12; o Papa João Paulo II foi que mais produziu mensagem para essa comemoração, ao todo são 27; o Papa emérito Bento XVI redigiu oito; e o atual pontífice, Papa Francisco publicou cinco mensagens. Desde a comemoração da vigésima edição do DMC, as mensagens passaram a ser divulgadas no dia 24 de janeiro, por ocasião da festa litúrgica de São Francisco Sales, padroeiro dos jornalistas.

A mensagem divulgada pelo Papa Francisco em janeiro de 2018, configura-se com um verdadeiro desafio para o nosso tempo, bem como demostra a atualidade da reflexão de Francisco sobre os fenômenos comunicacionais da atualidade. O trecho bíblico “A verdade vos tornará livres” extraído do evangelho de João, capítulo oito, versículo 32 é a ilumina para a temática proposta pelo Papa para o DMC: Fake news e jornalismo de paz.

“Hoje, no contexto de uma comunicação cada vez mais rápida e dentro de um sistema digital, assistimos ao fenómeno das notícias falsas, as chamadas fake news: isto convida-nos a refletir, sugerindo-me dedicar esta mensagem ao tema da verdade”, afirmou Francisco. Essa não é a primeira vez que o pontífice estabelece essa relação entre comunicação e verdade. O Papa Paulo VI, escreveu em 1972, por ocasião da celebração do 6° Dia Mundial das Comunicações Sociais, a mensagem intitulada: Os instrumentos de comunicação social a serviço da verdade.

“Cada fato tem sua própria verdade, que abrange muitos aspectos, nem sempre facilmente perceptíveis em seu todo. Somente o esforço conjunto e sincero de comunicadores e receptores pode oferecer uma certa garantia de que cada evento seja compreendido na sua verdade integral”, assegurou Paulo VI.  O direcionamento dado por pontífice é reforçado com a mensagem de Francisco, que comenta sobre a necessidade de um esforço coletivo, dos profissionais da comunicação, mas também de cada pessoa com a comunicação da verdade.

Essa reflexão proposta pelo Papa Paulo VI e resgatada pelo Papa Francisco configura-se como uma temática emergente no contexto social atual, pois se trata de um fenômeno mundial: a presença constante de notícias falsas e da falta de um jornalismo comprometido com a pessoa humana e não só com interesses políticos e econômicos. “Gostaria, assim, de contribuir para o esforço comum de prevenir a difusão das notícias falsas e para redescobrir o valor da profissão jornalística e a responsabilidade pessoal de cada um na comunicação da verdade”, declarou Francisco.

As fake news, são notícias falsas, mas que aparentam ser verdadeiras. Não se trata de uma piada, algo lúdico ou ficção, é uma mentira revestida de elementos que lhe conferem veracidade. A disseminação dessas notícias acontece principalmente no espaço das redes sociais digitais. A jornalista britânica Claire Wandle indicou uma lista de 7 tipos de notícias falsas que podemos identificar e combater:

  1. Sátira ou paródia: sem intenção de causar mal, mas tem potencial de enganar;
  2. Falsa conexão: quando manchetes, imagens ou legendas dão falsas dicas do que é o conteúdo realmente;
  3. Conteúdo enganoso: uso enganoso de uma informação para usá-la contra um assunto ou uma pessoa;
  4. Falso contexto: quando um conteúdo genuíno é compartilhado com um contexto falso;
  5. Conteúdo impostor: quando fontes (pessoas, organizações, entidades) têm seus nomes usados, mas com afirmações que não são suas;
  6. Conteúdo manipulado: quando uma informação ou ideia verdadeira é manipulada para enganar o público;
  7. Conteúdo fabricado: feito do zero, é 100% falso e construído com intuito de desinformar o público e causar algum mal.

Essa diversidade de formas pelas quais as notícias falsas podem aparecer nos conduzem a necessidade de uma reflexão cada vez mais aprofunda dos conteúdos que lemos e que muitas vezes compartilhamos. Particularmente em nosso país, vamos iniciar em breve o período eleitoral que tem se configurado com um dos mais incertos e complexos desde a redemocratização do Brasil. Em contexto políticos de outros países como nos Estados Unidos, a presença das fake news foram determinantes para o resultado das urnas eleitorais. É preciso que sejamos vigiantes e atentos aos conteúdos que tivermos acesso.

“As fakenews tornam-se frequentemente virais, ou seja, propagam-se com grande rapidez e de forma dificilmente controlável, não tanto pela lógica de partilha que caracteriza os meios de comunicação social como sobretudo pelo fascínio que detêm sobre a avidez insaciável que facilmente se acende no ser humano. As próprias motivações econômicas e oportunistas da desinformação têm a sua raiz na sede de poder”, nos lembra o Papa Francisco em sua mensagem.

No combate as notícias falsas e na luta pela construção de um contexto comunicativo de verdade e paz todos os esforços são validos. Cabe a cada um de nós decidir que conteúdo vamos compartilhar e que mensagem vamos levar a diante. Nessa batalha pela verdade e pela paz podemos contar com o reforço dado pela Federação Internacional das Associações e Instituições de Bibliotecária e Bibliotecas (IFLA) que publicou dicas que podem ajudar a todos no processo de identificação de notícias falsas.

  1. Considere a fonte da informação: tente entender sua missão e propósito olhando para outras publicações do site;
  2. Leia além do título: títulos chamam atenção, mas não contam a história completa;
  3. Cheque os autores: verifique se eles realmente existem e são confiáveis;
  4. Procure fontes de apoio: ache outras fontes que confirmem as notícias;
  5. Cheque a data da publicação: veja se a história ainda é relevante e está atualizada;
  6. Questione se é uma piada: o texto pode ser uma sátira;
  7. Revise seus preconceitos: seus ideais podem estar afetando seu julgamento;
  8. Consulte especialistas: procure uma confirmação de pessoas independentes com conhecimento;

Diante disso precisamos fomentar a reflexão e o debate sobre essas temáticas em nossas comunidades, escolas, família e grupos. Somente juntos poderemos combater a presença das fake news e assim fomentar um jornalismo comprometido com a verdade, a paz e o bem comum. Afinal como diz o Papa Francisco: Senhor, fazei de nós instrumentos da vossa paz. Fazei-nos reconhecer o mal que se insinua em uma  comunicação que não cria comunhão.Tornai-nos capazes de tirar o veneno dos nossos juízos.  Ajudai-nos a falar dos outros como de irmãos e irmãs.Vós sois fiel e digno de confiança;
fazei que as nossas palavras sejam sementes de bem para o  mundo”.

* Doutorando e mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, colaborador da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação da CNBB, coordenador da Signis Brasil Jovem, vice coordenador do Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação e jornalista. [email protected]

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Dom Orani João Tempesta

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D. Orani João Tempesta, Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

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