ESPIRITUALIDADE

TEXTOS: Francisco Morais, professor atuante na Arquidiocese de Natal (RN)

VOCAÇÃO E MISSÃO DO COMUNICADOR CRISTÃO

I. COMUNICAR TODO MUNDO COMUNICA

Toda pessoa humana sente necessidade de entrar em comunicação com o(s) outro(s). É por causa desta necessidade que o homem e a mulher vivem em grupo, em sociedade. Sem um grupo social, sem uma comunidade para satisfazer a sua necessidade de alteridade, o ser humano ficaria fragilizado, triste, solitário, deprimido, doente e “morreria socialmente”, mesmo estando física e biologicamente vivo. Aliás, a falta de comunicação pode até mesmo levar à morte biológica. No relacionamento com os outros, na vivência em grupo ou em comunidade, a pessoa se completa, constrói sua identidade, ocupa o seu tempo e partilha os seus sentimentos de alegria, de revolta, de raivas, de amor, os seus desejos, as suas angústias, os seus medos e tantas outras coisas. A comunicação é um ótimo remédio para muitos males que afetam a humanidade, na cultura individualista e egoísta dos tempos atuais.

Nenhuma pessoa deve ser ignorada, isolada, denegada ou abandonada na comunicação que se realiza na família, no grupo, na comunidade, na Igreja e na sociedade. As crianças, os idosos, as mulheres, os jovens, os negros, os índios, os mais pobres, os portadores de deficiências, todos têm necessidade de ser ouvidos e o direito de estar em permanente comunicação, para que possa usufruir, plenamente, do direito à vida. Isolar o idoso, negar atenção ao que a criança diz, tratar o portador de deficiência como um ser inútil, considerar os jovens como pessoas vazias, desconsiderar o índio ou o negro por causa da cor ou raça, tratar a mulher com indiferença ou violência, são preconceitos que levam a pessoa à infelicidade, a se sentir inferior.

A denegação é a pior exclusão social. Todos os seres humanos querem estar incluídos na comunicação da família, do grupo, da comunidade local e da sociedade para se sentirem gente. Quando alguém lembra de nós e nos leva em consideração nos sentimos felizes, incluídos, amados, pertencentes à família humana e valorizados. É por isso que a intriga faz tanto mal ao coração dos intrigados. Torna-se um peso, uma mancha, como se fosse uma nódoa que incomoda ao coração. O perdão é o melhor remédio para se apagar esse tipo de “doença” da incomunicação.

A comunicação é fundamental para a felicidade humana, mesmo sabendo que ela é, também, carregada de conflitos porque se realiza entre os diferentes. Mas até os conflitos são essenciais para dar sabor e sentido à vida humana. Ao lutar para transpor as barreiras dos conflitos, o ser humano sente o prazer de estar vivo, de estar em relação com o seu próximo, e, conseqüentemente, tem a garantia de que não está sozinho no mundo.

Através da comunicação, as pessoas trocam experiências, aperfeiçoam idéias, definem projetos e fazem inúmeras conquistas. Quanto maior e melhor for o grau de comunicação humana numa sociedade, maior e melhor será o seu desenvolvimento. As invenções tecnológicas, o avanço da medicina tudo só foi possível, até hoje, porque o homem é um ser em comunicação. Tudo isso foi conquistado em grupo. Mas não é só nos macro-espaços e nos ambientes escolares, universitários, políticos etc., que a comunicação é importante para a vida da gente. Não! Há uma comunicação diária, cotidiana, entre familiares, vizinhos, colegas de trabalho, amigos do time de futebol que dá sentido e alegria à vida. A nossa vida, desde que a gente ainda está na barriga da mãe, é tecida de comunicação.

A pessoa humana sente necessidade de comunicação porque foi criada à imagem e semelhança de Deus. A coisa que nos faz mais semelhantes a Deus é a comunicação, como chamado à COMUNHÃO.

II. COMUNICAÇÃO COMO VOCAÇÃO E MISSÃO NA IGREJA

Todos os seres humanos são comunicadores por natureza. Cada pessoa traz em si o gérmen da comunicação e dispõe de todos os recursos para se comunicar bem. A comunicação é inerente à própria condição humana, desde a criação, quando Deus, no seu mistério intra-trinitário, diz: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. A primeira coisa que nos faz parecidos com Deus é a comunicação. Nosso Deus é comunicação tão perfeita entre as três pessoas da Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – que, no seu mistério, se torna uma só pessoa. A comunicação entre as três pessoas de Deus é tão perfeita que se torna comunhão. É por isso que Ele é amor. Se somos a imagem e a semelhança deste Deus, trazemos em nós a VOCAÇÃO para a comunicação, e comunicação que deve gerar comunhão. Tudo o que impede que a nossa comunicação gere comunhão leva à negação da presenà §a divina em nosso comportamento humano. Isto quer dizer que podemos alcançar o paraíso nas realidades históricas e humanas onde nós vivemos: família, comunidade, local de trabalho? Não. Perdemos o paraíso há muito tempo. Mas somos chamados a viver num constante esforço de recuperação, de conversão, de superação dos nossos próprios limites humanos. Esse esforço é o que nos leva à santificação.

Quando fazemos exercícios de tolerância, de convivência com o diferente, de aceitação, de consensualidade, estamos recuperando a nossa semelhança com Deus, no âmbito da comunicação. Tolerar, conviver, fazer consensos, aceitar não significa se anular, negar a identidade, ser passivo e “maria-vai-com-as-outras”. Só exercita valores cristãos de comunicação quem tem identidade, personalidade e convicção do que quer na vida. Podemos dizer, então, que comunicador não é apenas quem tem um diploma de radialista, de jornalista, de marketeiro ou outra formação técnica ou acadêmica. Comunicadores somos todos nós seres humanos.

Se já somos comunicadores pela própria natureza humana, o cristão eleva-se nesta condição porque é chamado a exercer a sua missão através da comunicação, ou seja, do ANÚNCIO DA BOA-NOTÍCIA. O projeto que Jesus nos apresenta é um projeto de comunicação: “Ide e anunciai a todos os povos”. Toda atividade de evangelização é, também, atividade de comunicação. Isto quebra aquela concepção ultrapassada de que para ser comunicador da Pastoral da Comunicação a pessoa precisa ter um diploma de jornalista, radialista ou outro. É claro que a formação técnica e acadêmica é importante para a formação do agente da Pascom, neste mundo globalizado.

Mas não é o mais importante. Antes de dominar as técnicas e tecnologias dos modernos meios de comunicação, o comunicador cristão trabalha para melhorar a sua própria qualidade de agente comunicador. Como eu ajo nas relações que estabeleço com os outros? Que comportamentos eu adoto ao me relacionar com os outros dentro de casa, na vizinhança, no trabalho, na rua, na Igreja? Em todos os lugares, o cristão (e, mais especificamente, o[a] agente da Pastoral da Comunicação) testemunha o seu diferencial. Ele ou ela comunica e cria oportunidades de comunhão em todos os ambientes onde está. Irradia desejos de unidade e de comunhão no meio das diferenças, dos conflitos e das crises, sem anular os outros e sem se anular.
O comunicador cristão exerce e se empenha para que os outros exerçam o direito sagrado da comunicação, da expressão, da palavra, num mundo violento, injusto e excludente onde tantos irmãos e irmãs estão denegados, ignorados e desrespeitados. Somente o comunicador que tem clareza deste seu papel poderá se relacionar bem e usar os meios de comunicação em função da verdadeira comunicação que promove, que liberta e que anima. Caso contrário, poderá reproduzir os erros da comunicação de massa que predomina na sociedade atual. É por isso que dizemos: antes de usar os equipamentos de comunicação, é preciso cuidar da qualidade do comunicador.
A missão do comunicador cristão decorre de sua vocação e se alimenta na fonte do Batismo. É da graça batismal que emana nossa missão dentro da Igreja e no mundo. Pelo batismo nos tornamos cristãos, comunicadores por excelência, evangelizadores inscritos entre aqueles que são chamados pelo Mestre que passa, olha nos nossos olhos e nos chama pelo nome para seguí-lo. Estamos inscritos e fazemos parte do seu grupo de comunicadores. Fomos chamados a anunciar a Boa Notícia, a pro clamar a Boa-Nova sobre todos os telhados. O mundo é o nosso campo de trabalho, as estradas são para os nossos pés, as águas são para os nossos barcos.

Somos convidados a adentrar em águas mais profundas; ir mais longe, sempre. Não há limites de espaço ou de tempo. “Lancem as redes”: este é o apelo sempre atual. Ele se repete a cada novo dia, sempre com um novo desafio, de acordo com os sinais dos tempos, ou seja, de acordo com as realidades que vão aparecendo em nossas famílias, comunidades, paróquias e em nossa sociedade. Isso exige renovação dos nossos ânimos. Precisamos estar sempre motivados pelo Espírito, dispostos a enfrentar barreiras e passar pela experiência da cruz, mas com os olhos fixos no horizonte da ressurreição. A certeza da vitória futura nos impulsiona e nos dá forças para ultrapassar qualquer dificuldade ou sofrimento. Tudo passa, mas a palavra do Mestre permanece.
Somos chamados a cuidar para que os equipamentos não tomem o lugar da pessoa, na comunicação. Quando passamos a adorar e a cultuar as tecnolo gias avançadas, os equipamentos sofisticados, colocando a pessoa (sujeito e componente mais importante da comunicação) em segundo plano, entramos no erro do fetichismo, da idolatria e voltamos à época dos “bezerros de ouro”. Os meios de comunicação, as tecnologias, são ferramentas importantíssimas no mundo atual, mas devem ser vistos como meros instrumentos de trabalho que devem estar a serviço do ser humano e do bem comum. O meio em si mesmo não passa de um objeto, de um bem material desgastável, mas são maravilhas quando postos a serviço do bem, da vida e da felicidade verdadeira das pessoas.

Fazer Pastoral da Comunicação é, antes de tudo, trabalhar para melhorar os relacionamentos que se estabelecem entre as pessoas na família, na escola, no trabalho, na comunidade, na igreja e na sociedade como um todo. A melhoria da qualidade dos relacionamentos, no entanto, só acontece quando as pessoas, individualmente, despertam para um novo comportamento, para uma nova atitude diante dos outros. Então, nossa missão primeira de comunicadores é despertar os agentes de pastorais, os padres, os religiosos, as religiosas, os diáconos, os(as) radialistas, os(as) jornalistas, todos, para um jeito de comunicar interativo, dialógico, includente e acolhedor. É trabalhar para que se implante e se vivencie o modelo de comunicação de Jesus Cristo, permanentemente, dentro ou fora dos meios de comunicação. Fazer Pastoral da Comunicação é acreditar na possibilidade de uma Igreja cada vez mais viva, com unicativa, oxigenada pela comunicabilidade, arejada pela alegria do encontro entre irmãos e irmãs, pessoas que não querem viver isoladas, egoisticamente. É trabalhar com a mística cristã da comunhão e da unidade.

III. ESPIRITUALIDADE: VIVER A MÍSTICA DA COMUNICAÇÃO CRISTÃ.

Mas não basta saber todas estas coisas bonitas, fazer discursos ou pregações sobre a comunicação ideal. O comunicador cristão busca se educar e se reeducar, cotidianamente, para vivenciar o modelo de comunicação revelado por Jesus Cristo: ir ao encontro, ouvir, valorizar a pessoa do interlocutor. O agente da Pastoral da Pastoral da Comunicação é chamado a VIVENCIAR os valores evangélicos da comunicação cristã, fazendo a experiência do diálogo, da tolerância, da escuta, do acolhimento, da comunicação positiva, sempre; comunicação que leva à solidariedade, a comportamentos justos, à partilha dos bens e dos dons, ao exercício da cidadania, à transformação pessoal e social. Como podemos concretizar isto? Dentro das realidades das nossas comunidades, nos espaço e no tempo em que vivemos, nas circunstâncias e conjunturas que exigirão respostas e tomadas de atitudes de cada um de nà ³s. Na Pastoral da Comunicação, estas atitudes são tomadas de forma individual (no cotidiano de cada agente) e de forma coletiva(nas ações que se realizam em equipe, de forma planejada).
Para viver a experiência da Comunicação Cristã, o agente da Pascom ou de outras pastorais, movimentos e serviços precisa tomar iniciativa, ter coragem de romper com os velhos hábitos que o prendem a conceitos e a hábitos antigos, herdados de um modelo excludente e autoritário de comunicação, assimilados, muitas vezes, até na própria família. Quando o relacionamento dentro de casa é marcado pela violência da não-escuta entre os seus membros, quando a agressão verbal e até física toma o lugar da conversa e do diálogo, a criança cresce pensando que aquilo tudo é normal. Aí reproduz estes desvios de comunicação nas suas relações com as outras pessoas da sociedade, até mesmo dentro da Igreja.

O modelo de sociedade em que vivemos também é autoritário, excludente e violento. Também aprendemos com este modelo. Ele impõe o ponto de vista de poucos sobre muitos, as idéias de uns sobre os outros. É a chamada violência simbólica atuando de forma sutil nos meios de comunicação de massa: a massificação das idéias de um grupo sobre o restante da sociedade. A massificação da música, da opinião (tornando opinião pública o que é opinião de um grupo política e economicamente dominante), dos conceitos, são estratégias usadas para se ganhar prestígio, poder político e dinheiro. Os meios de comunicação de massa são as armas para manter este tipo de dominação velada. Com esse modelo também vamos absorvendo contra-valores, deformando a nossa comunicação humana e reproduzindo o protótipo de comunicador que vemos na mídia lucrativa.

O processo de reeducação para a comunicação requer alguns exercícios; algumas tomadas de atitudes bem concretas em nossa vida. São pistas que podem nos ajudar a viver a comunicação cristã na vida diária, espontaneamente, sem “forçação de barra”, mas revestidas de mística e de oração. Esta é a cruz que devemos abraçar para chegarmos à vitória de um mundo renovado. Queremos nos modificar e restaurar a comunicação, para que o mundo seja um ambiente de diálogo, de paz e de respeito mútuo. Eis alguns passos para trabalharmos a mística da comunicação cristã em nossos comportamentos diários.

1. Buscar o auto-conhecimento

O primeiro passo neste processo de reeducação para a comunicação humana e cristã passa por uma avaliação de si mesmo. Quem sou eu? Como sou? Como me percebo? Como me trato? Como me sinto em relação a mim mesmo? Quais são as minhas virtudes? Quais são as minhas fragilidades? Como eu reajo emocionalmente aos acontecimentos e aos outros? Como anda a minha auto-estima? Como é o meu lazer? E minha vida afetiva? Como me comunico/ relaciono com as outras pessoas dentro de casa, na escola, na rua, na Igreja, através do rádio ou outros meios? Quem busca ter consciência de si mesmo, ama-se, preza-se. Assim, fica bem mais fácil de amar e prezar os outros, respeitando suas qualidades e limites humanos. Aceitar-se para aceitar: este é o caminho do crescimento espiritual do comunicador cristão.

2. Tomar a iniciativa de ir ao encontro dos outros

O agente da Pastoral da Comunicação toma a iniciativa e vai ao encontro do outro, com o objetivo de estabelecer comunicação e construir comunhão com ele. Nossa missão requer trabalho, vivacidade, boa esperteza e antenas ligadas. Dormir no ponto ou passar batido são termos que não devem fazer parte do nosso cotidiano. Agir, sempre, mas agir no tempo certo, com cautela, usando uma certa diplomacia para conquistar o coração e a amizade de cada pessoa. Quem vai com jeito ganha a adesão e a confiança dos outros. Esta confiança jamais deve ser traída ou abalada. Sem confiança fica difícil desenvolver qualquer trabalho em comunidade ou em equipe. A estrada que nos separa dos outros, às vezes, é muito longa. Nossa missão é encurtar este caminho e até eliminar distâncias, sem esperar que os outros comecem. Esperar que as outras pastorais nos chamem, nos enviem notícias é dormir no ponto.

3. Cultivar a alegria de viver e a positividade

O agente da Pascom cultiva a alegria e o ânimo. Como Jesus Cristo, ele é portador da Boa Novidade. Quem entra em contato com o comunicador cristão sai cheio de boas notícias que trazem esperança. Já tem gente demais anunciando desgraças e tristezas, enquanto as coisas boas e os motivos de alegria ficam esquecidos. Aqui não cabe a alegria falsa, inventada, alienada. Estamos falando da alegria verdadeira que brota do coração e se expressa em pessoas que têm os pés no chão da realidade. Pessoas que, mesmo vivendo no meio de uma sociedade como a nossa, anunciam que um mundo novo é possível, quando fazemos alguma coisa para transformá-lo, aqui e agora, hoje. Estamos falando da alegria de ser solidário, de se despojar para experimentar a caridade, de fazer o bem, de escutar quem não tem chance de se dizer no modelo de comunicação que predomina nesta sociedade excludente. Em tudo, mesmo nas situações mais frustr antes e dolorosas, podemos encontrar uma face positiva, um motivo de esperança e de ânimo. “Tudo posso naquele que me fortalece”, diz São Paulo.

4. Cultivar a paciência para ouvir os outros com o coração

A escuta requer abertura ao outro. Quem escuta, verdadeiramente, procura entender e acolher o que o seu interlocutor está querendo comunicar. Não é simular que está ouvindo, martirizando-se. O coração de quem escuta tem paciência verdadeira e doa-se para fazer o outro mais feliz. Quanto bem pode fazer uma escuta verdadeira! Quem é escutado se sente valorizado, amado, acolhido. O comunicador é, antes de tudo, escutador: realiza-se, também, na escuta. É assim que podemos convencer os outros a também escutarem os outros, nas suas respectivas pastorais, movimentos, serviços e no cotidiano de suas vidas. O agente da Pascom educa pelo testemunho da comunicação.

5. Ser democrático e dividir responsabilidades com os outros

Autoritarismo não combina com comunicação cristã. A arrogância bloqueia, cria barreiras, provoca ruídos e corta qualquer possibilidade de comunhão. Nosso objetivo é gerar comunidade, espaços de diálogo. O comunicador educa-se, dia após dia, para dividir responsabilidades e deixar que outros exerçam o direito de dar opinião, de participar das decisões, de expressar suas idéias, de exercer a sua cidadania também dentro da Igreja. A Igreja não é propriedade privada de ninguém. Não somos donos; somos, apenas, filhos do Dono. Todos temos iguais direitos de exercer o direito de ser Igreja, cada um com a sua especificidade: leigos, padres, bispos, diáconos, religiosos e religiosas. O Batismo nos declara pertencentes, dignos, cidadãos de Cristo. Devemos encarar nossas funções no trabalho pastoral da Igreja como serviço e não como poder de mando, tipo “eu mando e você faz”. “Deus não escolhe os capacit ados; capacita os escolhidos”, diz uma frase de efeito. Quantos de nós não começamos a trabalhar na Igreja de forma tímida? A capacitação é conseqüência da nossa perseverança no trabalho. O tempo vai passando e vamos adquirindo saberes com a vivência pastoral, com a prática e nos momentos de estudos. Jesus Cristo confiou responsabilidades aos seus discípulos. Eles vestiram a camisa por causa desta confiança demonstrada por Jesus.

6. Falar e testemunhar com autoridade

O testemunho é o instrumento de trabalho mais eficaz do comunicador, dentro da comunidade. Ao viver os valores da comunicação cristã, o agente da Pastoral da Comunicação ganha credibilidade, confiança e amizade. É isso o que torna a equipe de Pascom uma referência para os outros agentes de pastoral, para as outras pastorais, setores da Igreja e outros segmentos da sociedade local. O comunicador cristão se capacita para desempenhar melhor a sua comunicação ao estabelecer contatos interpessoais, nos momentos de falar em público, com representantes de outras instituições e através dos meios de comunicação. Falar com segurança, expressando-se com qualidade, com convicção é o segredo de sua autoridade. Mais uma vez, aqui não cabe autoritarismo, arrogância e nem agressividade. Cabe, sim, a serenidade, a espontaneidade, a harmonia dos gestos e da fala, a sobriedade no jeito de falar e se comportar.

7. Cultivar o espírito comunicativo

Ser comunicador da Pastoral da Comunicação é um apostolado. Quem opta pelo projeto de comunicação de Jesus Cristo cultiva o ardor missionário e procura viver os valores deste projeto, em todas as ocasiões e em todos os ambientes. Somos chamados a viver esta experiência pastoral muito mais com atitudes do que com palavras. O que significa cultivar um espírito comunicativo? Significa estar disponível à escuta, ao encontro, à visita, aos contatos, à comunicação. Significa cultivar a saúde da mente, do corpo e do espírito para estabelecer sintonia com o outro, sinergia. Em outras palavras, a comunicação do agente da Pascom atrai as outras pessoas, provoca empatia, faz os outros se sentirem bem. Só alcança este tipo de comunicação quem cultiva a espiritualidade. Você deve estar perguntando: “Um comunicador assim não seria um super-homem? Um espécie de anjo?” É bom lembrar que somos humanos e temos nos sas quedas, nossos dias de mau-humor, nossos limites. Por isso que é imprescindível conhecer esses limites para superá-los. Ser um comunicador cristão é uma luta diária para vencer aquilo que atrapalha a boa comunicação.

PARA MEXER COM AS IDÉIAS
1. O que já existe de positivo, no seu comportamento, que já revela a vivência de uma espiritualidade da boa comunicação?
2. Que compromissos pessoais você pode tirar deste encontro, com o objetivo de melhorar, ainda mais, a vivência da espiritualidade da comunicação cristã?
3. Que sugestões você dá para que a equipe da Pastoral da Comunicação possa cultivar melhor, a vivência da espiritualidade cristã da comunicação?

IV. ACOLHIMENTO: EXERCÍCIO DO MODELO CRISTÃO DE COMUNICAÇÃO

Acolher é abrir o coração a si mesmo e ao outro. Quem faz o exercícios diários de acolhimento está em contínuo processo de educação para a comunicação cristã. O comunicador cristão se educa e se reeduca no acolhimento para exercer a sua missão dentro da Igreja e no mundo. Não estamos falando de recepção e nem de recepcionistas que ficam na frente da Igreja, antes das missas, ou em outros ambientes católicos, às vezes, até fardados. Nossa Igreja não precisa de recepcionistas de portas de lojas. Nossas comunidades, paróquias e dioceses precisam de pessoas acolhedoras, amigas, humanas, dispostas a criar ambientes espontâneos de vivência comunitária da fé.

Há uma tendência, atualmente, de se pensar que o acolhimento é missão de algumas pessoas da Igreja. Chega-se a definir agentes para formar o grupo da acolhida ou a Pastoral da Acolhida. São pequenos grupos que trabalham, geralmente, nas portas das Igrejas, antes de algumas missas. A acolhida, neste caso, fica restrita a um grupo. Ora, a acolhida não é missão de uma parcela da Igreja, mas de todos os agentes de pastorais, padres, religiosos, religiosas, diáconos, secretários e secretárias paroquiais, enfim, de todos os cristãos. Não foi isso que Cristo nos ensinou?

A Pastoral da Comunicação tem a missão de observar a comunicação que se realiza nestes espaços e ajudar a todas as pastorais, movimentos, serviços e outros setores da Igreja a acolherem bem, tanto os que já estão inseridos no trabalho, como aqueles que procuram informações, esporadicamente. A acolhida, de forma concreta pode se dar de diversas formas, de acordo com as diversas situações e realidades. Vejamos algumas atitudes que podemos desenvolver em relação aos outros:

1. Cumprimentar

Parece simples e óbvio, mas não é. Um bom dia, boa, tarde ou boa noite pode ser o segredo para desmanchar muitas barreiras e aproximar as pessoas na família, na vizinhança, no trabalho, na Igreja e na sociedade. Tome a iniciativa. Eduque-se neste gesto de comunicação. Cumprimente com alegria verdadeira, como missionário da comunicação onde você se encontra. Faça-o com alegria, olhando as pessoas nos olhos. Elas se sentirão valorizadas, atraídas pela sua simpatia, amadas.
Deixe que a beleza humana e divina que se esconde dentro do seu mistério de pessoa venha à tona e se expresse, sem timidez e sem vergonha de ser gente. Dentro de você tem muitos tesouros, muitas belezas. Quanto mais explorá-las, no decorrer da sua vida, mais surpresas você vai encontrar. Como você vai descobrir isto? Na reação e nas respostas que os outros vão dar às suas atitudes de acolhimento. Cultive a alegria de viver e faç a de cada dia, de cada tarde, de cada noite, um BOM DIA, uma BOA TARDE ou uma BOA NOITE. Deixe que os outros percebam isso em você. Irradie esta sensação com sinceridade e espontaneidade através dos seus cumprimentos carregados de vida. Você é imagem e semelhança do Deus da Vida. Mostre o rosto de Deus em seu rosto. Há muita gente precisando da presença de Deus. Você pode ser um instrumento para levar Deus aos outros na alegria de um cumprimento. Assim, você ajuda ao outro a descobrir a beleza que é VIVER E NÃO TER A VERGONHA DE SER FELIZ.

2. Abraçar

Este é um gesto de amizade. Estamos falando do abraço verdadeiro e não do abraço formal, ensaiado. Para abraçar não precisamos somente dos braços, mas do coração, também. No abraço, tocamos a outra pessoa, entramos em contato físico, sentimos a pulsação, o calor do seu corpo humano, a vibração de sua vida, a casa do seu espírito. O comunicador cristão educa-se para o abraço verdadeiro, para a afetividade. O abraço quebra barreiras, desmancha as distâncias, desperta o amor fraterno adormecido na dureza dos corações empedernidos pela falta de carinho, de respeito, de afetividade. Quantas pessoas sequer foram abraçadas em sua infância? Quantas não tiveram acesso a um abraço dentro da própria família? Há, em nossa sociedade, os excluídos do carinho, da afetividade. São os rejeitados, os que se sentem pouco amados, enfim, pouco acolhidos. Os próprios meios de comunicação excluem os considerados fe ios pela estética dominante, os deficientes, os baixos, os gordos, os idosos, os que vestem roupas simples e tantos outros. Nós, muitas vezes, repetimos este gesto do mau acolhimento, até dentro de casa. Na hora do abraço da paz, nas missas, quantos não escolhem os que vão abraçar, pela aparência? O lugar privilegiado de comunicação, de fraternidade, pode virar lugar de exclusão afetiva, sem falar noutros tipos de exclusão. O abraço da paz quase sempre tem se tornado aperto de mão, cumprimento formal, sem calor humano. O que fazer para transformar aquele momento em oportunidade de abraçar o irmão ou irmã da nossa comunidade, de vivenciar a comunhão, de conhecê-lo(a), de aprender o seu nome? A educação para o abraço verdadeiro começa dentro de casa, na família. É neste ambiente familiar onde já podemos começar a abraçar: os pais, os irmãos, os avós, os tios, os primos. Às vezes, torna-se mais fácil fazer este exercício fora do que dentro de ca sa. Também o abraço deve ser espontâneo, contextualizado e no momento certo. Se de uma hora para outra sairmos abraçando todos os que encontrarmos pela frente, só porque somos da Pascom, pode se tornar ridículo, artificial. Mas nunca perca a oportunidade de abraçar! É bom para você; faz bem ao outro.

3. Convidar

Se fôssemos mais cuidadosos em fazer convites cheios de calor humano e de vida, teríamos muito mais pessoas integradas nos serviços pastorais das nossas dioceses, paróquias, comunidades e pastorais. Aproxime-se das pessoas com alegria. Além de cumprimentá-las, convide-as. Interesse-se por elas. Saiba mais sobre os dons de cada uma delas. Chame-as pelo nome. Valorize-as e convide-as para fazer parte do trabalho pastoral, conforme suas habilidades e aptidões. Jesus Cristo não perdeu tempo: saiu por todos os lugares convidando pessoas para trabalhar na sua equipe. Ele não convidou somente os letrados, os “perfeitos”, os sabichões e nem os endinheirados. Ele formou um grupo diversificado, sabendo que ali havia gente com qualidades e defeitos. Jesus nos ensina que é preciso chamar pelo nome. E o convite é para “hoje”. Os convites feitos ao microfone, de forma impessoal, não tocam o coração e não mobilizam ne nhuma vontade no coração do outro. O convite verdadeiro, direto, pessoal, corpo-a-corpo, desperta desejo na pessoa convidada.

4. Pedir para entrar e sentar

Abra as portas. Muitas vezes, as portas estão abertas, mas as pessoas não se sentem à vontade porque quem já está dentro é fechado. A porta que deve se abrir para que as pessoas cheguem, entrem e se sintam à vontade está no seu coração. É aí que está a porta que precisa ser aberta. Mas tem um detalhe: só você tem a chave para abrir-se e abrir a Igreja aos outros. Você é a Igreja viva. Zele por ela em sua comunicação, em seus comportamentos. Faça afago a quem chega. Peça para que a pessoa entre e sente. Deixe-a à vontade. A Igreja é a casa de todos e todos têm o direito de ser bem acolhidos ou acolhidas. Dê atenção a quem chega sentindo-se estranho. Deixe que a pessoa se sinta bem na casa de Deus e tenha o desejo de voltar à nossa comunidade de fé. Trate a todos por igual, sem distinção e sem preconceitos. A Igreja é a comunidade da fraternidade.

5. Informar bem

Muitas pessoas procuram informações na rua, nas instituições, nas empresas e na Igreja. A informação é um bem precioso no mundo de hoje. Vivemos num mundo inflacionado de informações, o que chega inclusive a atrapalhar. Este excesso de informações pode causar ruídos: é a entropia. Paradoxalmente, constatamos que muitas pessoas ainda estão excluídas dos processos informativos. Muitos ainda são as pessoas que não sabem ler e nem escrever e, por isso, ficam privadas de obter informações escritas, sobretudo, nas ruas. Muitas não têm acesso a tecnologias. Outras, não entendem termos técnicos, jurídicos, teológicos, científicos. A maioria procura informações mais simples: horários das missas, como fazer um documento, como chegar a determinado local da cidade, o que fazer para. Muitas vezes, quando buscam estas informações, deparam-se com gente mau-humorada, grossa, agressiva, fechada. Isso leva as pess oas ao sofrimento provocado pela não-informação. Viva a comunicação cristã: dê a informação clara e precisa, explique a quem ainda não entendeu, com carinho, com atenção, com interesse. Nossa missão de comunicadores é despertar as outras pessoas da nossa comunidade e da nossa Igreja para isso também. Não somos obrigados a ter todas as informações, mas partilhar todas as informações que tivermos com quem necessita delas.

6. Dar a palavra

Todos têm o direito de falar, de dizer a sua palavra. Na verdade, ninguém dá a palavra ao outro, porque o outro tem o direito humano de se pronunciar também. Devemos nos educar para dizer somente o necessário, respeitando o tempo do interlocutor. A ganância pelo dizer, em nossa sociedade, provoca a não-escuta e deixa muita gente sem espaço para dizer-se. Se uns são condenados ao silêncio, é porque outros estão falando demais. Apropriar-se do tempo que o outro teria para se pronunciar é roubo. Temos a missão de educarmo-nos e educarmos os outros para o uso racional do nosso tempo de fala, reconhecendo o direito de expressão dos nossos interlocutores, seja na comunicação interpessoal ou através dos meios de comunicação. Somos chamados a ser interativos. Nos meios, isto se dá através de entrevistas e de outros formatos que oportunizam espaços às pessoas da comunidade. E não estou falando apenas de autorid ades e nem de representantes legais de grupos legalmente constituídos. Falo das pessoas simples, anônimas, denegadas e excluídas pela sociedade vigente.

7. Incluir os que ainda estão por fora

A metodologia da comunicação cristã envolve, convida, chama pelo nome, inclui. Se uma ovelha está fora do rebanho, deixa-se as noventa e nove para buscá-la e incluí-la. Quantas ovelhas ainda estão fora da sua paróquia? Quantas sequer receberam um estímulo que lhes motivasse a fazer parte da vida pastoral? Quando queremos nos livrar desta responsabilidade, atribuímos a culpa aos outros: “Eles não querem nada”. Aí ficamos tranqüilos, comodamente na mesmice do nosso grupinho de sempre. É daí que surgem “os donos” na Igreja, acostumados a mandar e desmandar. O comunicador cristão educa-se para incluir os outros em tudo que faz. É assim que ele desperta os outros para fazer o mesmo, em todos os setores da Igreja. Muitas vezes, as pessoas ficam por fora do nosso trabalho pastoral porque não têm chance para entrar e fazer parte, principalmente, quando já existem os donos, o grupinho que manda e não partil ha responsabilidade. Devemos trabalhar para mudar este comportamento incompatível com o modelo cristão de comunicação.

8. Ser espontâneo

Tudo isto não se aprende em cartilhas e nem em livros. Não há receitas. Cada um vai encontrando as oportunidades e o tempo certo de exercitar estes princípios da comunicação cristã, em todos os momentos da sua vida. Devagarinho, num processo de auto-educação e de conversão para a comunhão, todas estas coisas vão virando hábito e se incorporando ao nosso comportamento, ao nosso cotidiano. E tudo deve ser feito de uma forma espontânea, sem artificialismos e nem teatro. O Espírito Santo vai nos educando a vivenciar a comunicação cristã. Mas cada um terá de fazer a sua parte: abrir-se ao novo.

PARA MEXER COM AS IDÉIAS

1. Que experiências positivas de acolhimento você tem para contar lá da sua paróquia?
2. Que comportamentos ou atitudes você percebe, na sua paróquia, que ainda dificulta o acolhimento? (contra testemunhos).
3. O que a equipe da Pastoral da Comunicação pode fazer para melhorar a qualidade do acolhimento em sua paróquia? Dê sugestões de atividades.

V. RESPONDER AO CHAMADO ATRAVÉS DOS MCS

Vamos, agora, tratar de um assunto que extrapola o âmbito da comunicação interna da Igreja: os meios de comunicação sociais ou a comunicação à distância. É óbvio que estamos nos referindo aos meios de longo alcance e de tecnologias mais sofisticadas. Eles são muito importantes no mundo de hoje e devemos usá-los a serviço da comunicação cristã, solidária, democrática, comunitária e dialógica. Podemos dizer que a comunicação através dos MCS COMPLEMENTA a comunicação interpessoal e inter-grupal (inter-pastoral, inter-comunitária), no contexto do trabalho da Pastoral da comunicação. A comunicação interpessoal, inter-grupal, inter-pastoral é prioridade da Pastoral da Comunicação. Em seguida, vem a comunicação à distância, a comunicação midiática, para completar o nosso trabalho pastoral. Os instrumentos e as tecnologias midiáticas cumprem a sua função quando reforçam essa primeira modalidade, ou seja, a comunicação que se estabelece entre as pessoas, entre os grupos sociais, entre as pastorais.

O agente da Pastoral da Comunicação zela pela função social dos meios de comunicação, utilizando o rádio, a televisão, o jornal impresso, a revista, a internet e outros, a serviço da vida humana e do bem-comum. Para cumprir bem essa missão:

1. Capacita-se

O agente da Pascom descobre o seu dom e o coloca a serviço da comunicação. Esta é a sua missão na Igreja. É um chamado que emana do Batismo. Para responder bem esse chamado da graça batismal e desempenhar, com zelo pastoral, esta sua missão, procura se CAPACITAR. A primeira etapa de capacitação se refere aos princípios humanos, cristãos, éticos. Diríamos que é a etapa em que se sensibiliza a pessoa que vai operar os instrumentos, as tecnologias midiáticas, para que possa fazê-lo com responsabilidade, com respeito aos outros e com ética. A qualidade humana do comunicador é mais importante do que a qualidade técnica ou do que a quantidade de equipamentos disponíveis. Depois, vem a outra e também indispensável etapa: a capacitação TÉCNICA, profissional, do agente da Pascom. De acordo com a habilidade de cada um, a equipe paroquial da comunicação busca capacitar seus integrantes para que operem produzam e veiculem suas edições com qualidade técnica. Daí a importância das oficinas e dos cursos de rádio, de comunicação impressa, de fotografia, de informática e outras.

2. Interage

A nossa prática cristã de comunicação pressupõe interatividade. Interagir é garantir espaço ao outro; é levá-lo em consideração como sujeito; como participante ativo do processo de comunicação. Ao invés de excluir, como muitas vezes fazem os grandes meios, INCLUÍMOS. Não basta possuir meios de comunicação na paróquia ou diocese; faz-se necessário definir como vamos operá-los a serviço das pessoas, levando em consideração a voz, a palavra, a opinião das famílias e a expressão cultural dos grupos que formam a comunidade. Nos programas de rádio, nos jornais e boletins impressos, na internet e noutros meios, somos chamados a INTERAGIR com as pessoas que escutam, lêem ou vêem nossas produções. As entrevistas, enquetes, comentários, histórias de vida, artigos, todos esses formatos podem ser usados para inserir as pessoas da comunidade no trabalho realizado pela Pascom, através dos meios. Isto exige esforço, preparação, trabalho em equipe e dinamicidade. O resultado? Mais gente ouvindo, lendo, vendo e se interessando pelos nossos programas, jornais, páginas. O trabalho com os meios de comunicação deve ser a extensão daquele outro trabalho de acolhimento, de escuta e de bom relacionamento que fazemos na comunicação presencial, interpessoal, inter-grupal ou inter-pastoral. Complementam-se para gerar comunhão e solidariedade. O comunicador é um amigo da comunidade que está a seu serviço, em permanente contato com as pessoas e as comunidades.

3. Mobiliza

A metodologia interativa leva em consideração a vida das pessoas: seus problemas sociais, buscas de soluções, expressões culturais (música local, poesia, festas populares da região, violeiros etc.), opiniões da população sobre determinados temas (tabus, preconceitos, política, religião, aumento de preços, futebol etc.) e tantas outras coisas. Este trabalho pode levar à mobilização da comunidade, para que esta se organize e busque melhorar as suas próprias condições de vida: saneamento básico, melhor atendimento ou construção do posto de saúde, escola de qualidade para as crianças, construção da capela do bairro etc. Os programas de rádio, as difusoras, os jornais impressos podem mexer com a vida da comunidade, resgatando a esperança e fazendo surgir coisas boas. Como podemos fazer isso? Despertando as pessoas, o poder público, as instituições locais a fazerem juntos, a trabalharem em parceria, ca da um fazendo a sua parte. O objetivo é o bem comum e o desenvolvimento sustentável da comunidade. Nossos programas de rádio, por exemplo, podem colocar em debate o problema do lixo. Podem provocar uma reunião para os vários setores da comunidade planejem como vão resolver, cada um fazendo o que está ao seu alcance. Nosso trabalho de comunicação ganha mais vida, tem mais sabor quando gera atitudes de solidariedade e desperta para a organização comunitária. Mas isso só se consegue com programas bem planejados, bem montados, cheios de vida e de calor humano, com matérias bem feitas que despertem vontades nas pessoas, que as façam sair do comodismo.

4. Presta serviços

Tudo o que o(a) comunicador(a) cristão(ã) faz através dos meios deve estar a serviço das pessoas, das famílias e da comunidade. Assumir-se como SERVIDOR e não como “estrela” é um passo importante para se fazer comunicação cristã. Os “estrelas” fazem o contrário: trabalham para brilhar sozinhos, falam muito, querem destaque e fazem de tudo para que a comunidade esteja a seu serviço. O agente da Pascom fica feliz quando o seu programa ou seu jornal presta serviço e facilita a vida das pessoas. Quando isso acontece, a resposta vem logo: a comunidade se identifica com o programa ou jornal, as passam a ser ouvintes ou leitores assíduos, tornam-se amigas dos comunicadores. Prestar serviço vai desde os avisos, os comunicados dos horários das missas, do dia do pagamento dos funcionários, até as dicas para tirar manchas de roupas, para evitar acidentes domésticos e tantas outras coisas. A própria mobilizaçà £o para melhorar a vida da comunidade já é uma prestação de serviços. Os programas e jornais que trazem coisas concretas, úteis à vida das pessoas, ganham ouvintes e leitores.

5. Valoriza a cultura local

A evangelização exige inculturação. A encarnação do evangelho se dá nas realidades históricas, no hoje de cada tempo e no terreno da cultura. As pessoas criam, pensam, tentam interpretar o sentido da vida, o mundo. Criam linguagens para expressar o que deduzem, os saberes que elaboram, as interpretações que dão às coisas, a partir das experiências cotidianas. Sentem necessidade de partilhar tudo isso e socializam, comungam seus pensamentos, suas interpretações, suas idéias. Criam-se, assim, manifestações culturais coletivas que são carregadas de significados. São expressões da alma de um povo, de um grupo. Geram-se, desta forma, culturas diversas, dando interpretações diferentes do mundo. Este multiculturalismo, esta pluralidade de culturas, enriquece a humanidade. As culturas dos grupos humanos – de cada etnia, existente nas mais diversas regiões, nas pequenas comunidades – formam o patrimônio da hu manidade. Quando a cultura de um grupo humano é esquecida ou eliminada, a humanidade toda empobrece.

Jesus Cristo nos ensina, no seu jeito de se comunicar, que o respeito à diversidade cultural é imprescindível. Seu projeto de comunicação inclui o diferente, cria espaços de diálogo e realiza-se de acordo com as realidades humanas. Não foi isso que aconteceu com a samaritana, no Poço de Jacó? O comunicador cristão valoriza e leva em consideração a cultura local, dentro dos meios de comunicação. A música local, o sotaque da região, as expressões religiosas, as festas populares, a poesia matuta são valores que devem ter espaços em nossos meios de comunicação.

6. Evangeliza

Respeitar as pessoas, passar informações corretas, mobilizar para a solidariedade, dar chances para que as pessoas exerçam o direito humano da comunicação, atuar com ética e em favor da vida, tudo isso faz parte do trabalho de evangelização. Evangelizar é despertar o desejo de viver os princípios do Evangelho no coração das pessoas. É animar para que as pessoas transformem este desejo em atitudes, em ações concretas. Usamos os meios para evangelizar através das mensagens, das histórias de vida que apresentamos nos MCS, das orações, dos depoimentos, das missas transmitidas etc.

7. Gera comunhão

A metodologia interativa gera participação e comunhão, também através dos MCS. Neles, exercemos o nosso apostolado, a nossa vocação. Com eles podemos adentrar em águas mais profundas e ir além dos muros ou das quatro paredes das nossas paróquias ou pastorais. Chegar aos outros, à multidão que está lá fora, é o grande desafio que temos para este século. Mas chegar a eles através do diálogo, da amizade, do serviço, tudo para a construção da unidade e da paz.

Para lembrar: Quando só existe o trabalho com os meios de comunicação, numa paróquia ou diocese, já há um embrião, mas ainda não podemos dizer que há a Pastoral da Comunicação. O mais importante para se fazer Pastoral da Comunicação não é, simplesmente, adquirir equipamentos de comunicação para a comunidade, paróquia ou diocese, e pronto. Não! O mais importante é fazer um trabalho para que as pessoas comecem a melhorar o jeito de comunicar. Nossa MISSÃO é doar a vida ao serviço de evangelizar e humanizar as relações interpessoais, inter-grupais, inter-pastorais e aquelas relações que se estabelecem à distância, através do rádio, da televisão, dos impressos, da informática e outros. Trabalho pastoral se faz com gente. Precisamos lançar as redes em águas mais profundas para alcançar qualidade na nossa comunicação humana e cristã. Quando integramos os meios a este processo de melhoria gradat iva da comunicação humana, aí, sim, eles ganham sentido. Caso contrário, poderemos ter um sofisticado arsenal de equipamentos na paróquia ou na diocese, e, paralelamente, sofrermos as conseqüências de uma comunicação humana superficial, com dificuldades nos relacionamentos entre as pessoas, grupos e pastorais.

Quando já existe um trabalho de educação para a comunicação cristã, aí, sim, os meios ganham relevância e são importantíssimos para potencializar o trabalho da Pastoral da Comunicação. O trabalho da equipa da Pascom se completa com o uso dos meios, dos equipamentos sofisticados, com as tecnologias a serviço da vida, da solidariedade, da esperança e da paz. Para isso, é preciso investir na qualidade humana e técnica do comunicador. Os cursos, as oficinas, os seminário, todas as atividades de capacitação vão contribuindo para que possamos exercer a nossa vocação e na nossa missão de comunicadores cristãos, no rádio, na televisão, nos impressos, na internet e outros.

PARA MEXER COM AS IDÉIAS
1. Com que meios de comunicação a equipe da Pascom da sua paróquia trabalha?
2. Que orientações para o trabalho com os MCS, descritos acima, já são colocadas em prática em sua paróquia?
3. O que ainda precisa ser superado pela sua paróquia no trabalho com os MCS?
4. Que sugestões de atividades, concretamente, você dá para melhorar o trabalho com os MCS em sua paróquia?

VI. PASCOM: FERMENTO QUE AGE EM PROL DA PASTORAL DE CONJUNTO

O termo Pastoral de Conjunto vem sendo usado há muito tempo, A PARTIR do Concílio Vaticano II. Embora tanto já se tenha falado na necessidade de uma atuação conjunta, unida, integrada, de todos os organismos que fazem a ação evangelizadora da nossa Igreja, ainda é pouco o que se tem conseguido. As dioceses reclamam que muitas paróquias só pensam em si mesmas e se fecham no seu “mundinho”, algumas mais interessadas em mostrar que são mais organizadas, mais animadas, mais assíduas, e, para surpresa nossa, até mais ricas que as outras.

Paróquias e dioceses reclamam que muitas pastorais, serviços e movimentos não se comunicam entre si. Cada um ou cada uma “puxa a brasa para a sua sardinha”, fecham-se, como se o seu trabalho não tivesse nada a ver com o trabalho dos demais. Também querem demonstrar que são MAIS. Perguntamos: este jeito de ser não está muito parecido com o da sociedade mercadológica competitiva, excludente e perversa que aí está? Não estaremos reproduzindo os contra-valores desta sociedade pecaminosa dentro do nosso trabalho pastoral? É urgente a nossa conversão! Precisamos rever nossos comportamentos pastorais e lançar as redes em águas mais profundas, recuperando os valores cristãos em nossas experiências pastorais.

Há pouco mais de 40 anos, as nossas dioceses e, posteriormente, as paróquias, começaram a fazer os seus planos pastorais. Têm início as assembléias pastorais diocesanas e paroquias, com o objetivo de proporcionar melhor organização e unidade ao trabalho de evangelização, em tos os aspectos: social, catequético e outros. A finalidade era que isto favorecesse o surgimento de uma pastoral de conjunto, facilitando o trabalho integrado entre as várias paróquias, comunidades e pastorais. De fato, as assembléias e o planejamento do trabalho pastoral ajudou no crescimento e na organização da nossa Igreja, mas ainda há muito o que se fazer. É preciso avançar mais.

Em muitos casos, as paróquias e pastorais só se reúnem entre si no momento da assembléia. Ali cada uma define o que vai fazer no ano seguinte e volta para o seu “mundinho”. Resultado: não se definem estratégias que possam levar as pastorais, serviços e movimentos a uma ação integrada, uns complementando o trabalho dos outros. Muitas vezes, a Pastoral da Juventude e a Pastoral do Idoso, por exemplo, trabalham numa mesma realidade, mas nunca se perguntaram que ações poderiam fazer juntas ali. Desta forma, o trabalho pode ficar pulverizado, fragmentado e vulnerável.

As nossas assembléias devem facilitar a vivência da Pastoral de Conjunto, fortalecendo a unidade e a comunhão entre todos os setores da Igreja, no cotidiano. Na verdade, isto não se consegue apenas com um plano, com um papel, com alguns dias de assembléia, mas com a abertura de coração de cada agente de pastoral, padre, diácono, religioso e religiosa. Pastoral de Conjunto é muito mais uma atitude de abertura para se trabalhar em equipe, do que um documento escrito.

É função da Pastoral da Comunicação, em primeiro lugar, trabalhar para fortalecer os laços entre os organismos pastorais de uma diocese ou paróquia. Isto se consegue criando oportunidades de convivência, de troca de experiências e de comunhão entre as pessoas que coordenam os setores ou que participam do trabalho. A Pascom não vive em função de si mesma, mas em função do conjunto, contribuindo para emendar onde o vaso estiver trincado, unindo, costurando comunicação. No entanto, precisamos de cautela, de jeito, de cuidado e de muita perseverança. Para tudo há o seu tempo. Quem se apressa pode dar com os burros n’água e até adquirir a antipatia do padre e dos outros agentes. Primeiro é preciso se colocar a serviço, escutar, ajudar, criar empatia, valorizar cada pastoral e cada agente. Só os amigos têm liberdade de dizer determinadas coisas sem ferir e sem espantar. A pressa é ini miga do trabalho da Pascom. As conquistar são feitas com paciência histórica, porém, dentro de um certo ritmo. Cada equipe da Pascom deve perceber o ritmo que pode ser adotado na sua diocese, paróquia ou comunidade.

Na Arquidiocese de Natal, uma das estratégias que a Pastoral da Comunicação está usando para fortalecer a Pastoral de conjunto é a reunião mensal entre as coordenações das pastorais, serviços e outros setores do Centro Pastoral Pio X. Foi preciso muito tempo para se fazer esta conquista. Tomamos a iniciativa. Entregamos convite escrito em cada sala. No dia marcado saímos da nossa sala para a sala de reuniões com a sensação que uma ou duas pessoas apareceriam. Para nossa surpresa, a sala lotou. Todos os setores convidados estavam presentes, participaram, opinaram. Gostaram tanto que sugeriram a continuidade das reuniões e que preparássemos um lanche após cada uma delas. Cada pastoral, serviço e setor vai expor o que faz, nas futuras reuniões. Gostamos. Comer juntos foi umas das estratégias mais eficientes que Jesus encontrou para aproximar as pessoas e construir comunidade.

Nossa Igreja se reúne em torno da mesma mesa para comer e beber juntos o pão da vida e o cálice da salvação. Este é o sentido da missa: sentar-se ao redor da mesa, como família, para pedir perdão, glorificar, escutar a palavra, oferecer o que somos e temos, saciar nossa fome e dar graças. Mas não é só na missa que devemos viver esta experiência; é no dia-a-dia. Cada equipe paroquial da Pascom deve planejar suas próprias estratégias para aproximar as várias pastorais, movimentos, secretário(a) paroquial e outros envolvidos no trabalho pastoral.

Cremos que é urgente criar a noção de COMUNHÃO VIVENCIADA ou a CONSCIÊNCIA DA COMUNHÃO PASTORAL entre os que fazem as nossas paróquias, pastorais e todos os setores eclesiais. A comunhão eucarística é o ápice da nossa vivência comunitária, fraterna, solidária. O sentido do seu mistério requer uma vivência de comunicação entre irmãos e irmãs que se amam e, por isso mesmo, permanecem em comunhão. Parece que, para muitos, o significado da comunhão desvinculou-se da vida, do compromisso social com um mundo melhor, mais acolhedor, mais solidário e mais justo. É com o outro, em comunidade, que cada um deve viver a força viva da comunhão, ao redor do Cristo, centro e ápice da nossa unidade.

PARA MEXER COM AS IDÉIAS
1. Quais são os avanços que presenciamos, em nossa paróquia, que dão sinais de uma Pastoral de Conjunto?
2. O que percebemos, concretamente, nos comportamentos dos agentes de pastorais, padres e outros que trabalham na paróquia, que dificulta a existência de uma Pastoral de Conjunto?
3. Que atividades a Pastoral da Comunicação pode fazer, em nossa paróquia, para facilitar ou fortalecer a Pastoral de Conjunto? Como fazer isso? Dê sugestões.

Francisco Morais
Da equipe de Coordenação da Pascom – Arquidiocese de Natal

(Ao reproduzir este texto, favor respeitar os direitos autorais)

 

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